08 fevereiro, 2007

'Não se faz política sem traidores', diz Collor
Ex-presidente quer contar versão do impeachment no primeiro discurso no Senado. E diz que o escândalo do mensalão foi muito pior que as denúncias que enfrentou.
Leandro Colon Do G1, em Brasília

Agência Estado
O ex-presidente e senador Fernando Collor (PTB-AL) durante sessão nesta semana no plenário do Senado (foto: Roberto Jayme/Agência Estado)
O ex-presidente da República e agora senador Fernando Collor (PTB-AL) avisa: em seu primeiro discurso na tribuna do Senado, em março, contará sua versão sobre os episódios que levaram ao impeachment em 1992.

Sob acusações de corrupção e tráfico de influência atribuídas ao seu tesoureiro de campanha, PC Farias, Collor renunciou. Mesmo assim, perdeu os direitos políticos por oito anos.

"Se a verdade ofender, alguns ficarão incomodados", diz. "Não se faz política sem a participação de traidores. Na política não existem amigos. Mas interesses", afirma. "O discurso terá detalhes, dia, hora, minuto, segundo, nomes, fatos concretos. Carreguei na tinta", afirmou.
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Collor recebeu o G1 em seu gabinete na manhã de quarta-feira (7). Ele contou um pouco do livro que pretende publicar sobre sua passagem pelo Palácio do Planalto, onde dirá que sofreu um golpe do Congresso.

"Tanto que meu livro chama “A crônica de um golpe”, a versão de quem viveu o fato. Um golpe articulado". Collor afirma que o escândalo do mensalão foi muito mais grave do que as denúncias que o derrubaram do Palácio do Planalto. "Vários megatons mais graves", diz. O senador falou ainda dos erros cometidos na presidência, principalmente na relação com o Congresso e quando tentou convocar a população para sair às ruas de verde e amarelo - como resposta, manifestantes saíram de preto.

"Foi um erro terrível. Um erro de avaliação", afirma. E admite que pensou no suicídio: "O que eu passei, me levou a pensar em tudo".

O ex-presidente conta também os planos como senador, diz que não é candidato a presidente em 2010, mas não descarta essa possibilidade no futuro.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista: G1 - O senhor ficou muito isolado na época do impeachment. Muitos o traíram? Collor - Claro, não se faz política sem a participação de traidores. G1 - Há alguns no plenário do Senado? Collor - Não tentei buscá-los, é uma página virada. Mas deve ter. Isso para mim não causa transtornos.

G1 - O senhor disse que houve traidores. Há amigos? Collor - Não. Na política não existem amigos, mas interesses. G1 - O que podemos esperar de seu primeiro discurso como senador? Collor - Será fundamentalmente a versão de quem viveu os fatos que levaram a meu afastamento da presidência em 92. Todos já deram suas versões, livros foram escritos, teses foram defendidas em universidades, artigos reproduzidos. Cada um dando sua versão. Não há ainda a versão de quem viveu o fato, ou seja, a minha. Ainda não foi dada essa oportunidade à nação brasileira. Agora, eleito senador, acho que chegou a hora da preencher essa lacuna. E será uma versão absolutamente fidedigna dos fatos. O juízo ficará a cargo de quem tiver a curiosidade de ouvir, assistir ou de ler. G1 - Poderia antecipar alguma coisa? Collor - Não poderia dar um ponto sem que puxasse a outro, sem que criasse ilação, o que acabaria deturpando. Prefiro guardar isso para que não haja nenhuma especulação.
08 de fevereiro, 2007


G1 - Seus adversários daquela época devem ficar preocupados? Collor - Eu acho que não. Será a verdade. Se a verdade ofender, alguns ficarão incomodados. Mas a verdade, em geral, busca esclarecer, dar uma luz nesse processo político movido contra mim que não é de conhecimento da sociedade. O discurso deve ser dado no final de março porque preciso de tempo para levantar todos os pronunciamentos realizados naquela época, sugestões de ordem levantadas em 92, toda a tramitação que foi dada a esse processo.

G1 - Então será um discurso rico em detalhes? Collor - Muito. Com detalhes, dia, hora, minuto, segundo, nomes, fatos concretos. Eu tenho um livro escrito de 640 páginas, que não pretendo publicar tão cedo. Algo que escrevi num momento de muita emoção, logo após minha absolvição no Supremo Tribunal Federal, em 94. É um livro importante porque ali estão colocadas as emoções de quem esteve submetido àquele moedor. Carreguei bastante nas tintas. Não distorci os fatos, mas carreguei na adjetivação, coisa que aprendi que no jornalismo devemos evitar. G1 - O senhor acha que foi vitima de algum tipo de golpe dentro do Congresso? Collor - Sim, sem dúvida. Tanto que meu livro se chama “A crônica de um golpe”, a versão de quem viveu o fato. Um golpe articulado. O ex-ministro Tales Ramalho (ex-ministro do Tribunal de Contas da União e ex-deputado), que me convenceu a publicar o livro, me disse: ‘olhe, a sua queda começou a ser tramada logo após a sua posse’. Contarei isso no livro, não no discurso. Ele disse que logo depois da posse, foi chamado para uma reunião com dirigentes de entidades de classe importantes, políticos importantes, e que, ao final do jantar, sentaram-se para tomar um cafezinho, e uma das pessoas disse: vamos ao que interessa, como faremos para derrubar o Collor? Aí, o Tales disse ‘vocês estão loucos. Ele foi legitimamente eleito’. E as pessoas mudaram de assunto. O Tales pediu licença e foi embora. G1 - O senhor tem dito que errou na relação com o Congresso. Qual foi seu erro? Collor - Minha relação com Congresso foi de uma prática política que adquiri, que não é a correta, de governar buscando sempre apoio da população, da massa. Porque sempre tive muita pressa, pouca paciência para ficar dialogando, explicando projetos. O que funcionava era o atendimento das questões paroquiais. Agora, isso não é defeito dos parlamentares, eles não têm culpa. Se eu estou jogando, estou aceitando as regras estabelecidas. E essas regras, embora deficientes, me obrigariam a cumprir meu papel no jogo: ser o líder e exercer a liderança política do país. Mas eu ocupava 80% do meu tempo para administrar o país, e apenas 20% com o Congresso. Sem dúvida que foi meu maior erro. Política se faz com conversa. A matéria-prima é conversa, palavra, entendimento, encontro, convivência. Se você falta com isso, cria um distanciamento muito grande e isso não é frutífero. Gera uma instabilidade na base de sustentação do governo. Na minha época, para cada projeto, tinha uma maioria diferente. Não é assim que funciona. Eu nunca tive uma base definida, sólida, de apoio no Congresso Nacional. Não conseguia.

G1 - O senhor disse que governava com apoio da população. Mas, em 92, o senhor chamou a população para ir às ruas de verde-amarelo, mas as pessoas responderam com roupas pretas... Collor - Foi um erro terrível. Um erro de avaliação. Naquele instante, eu estava saturado, não conseguia governar como gostaria. Falei aquilo num encontro com taxistas no Palácio do Planalto. E eu havia dito ao chefe do cerimonial que não falaria naquele dia. E assim foi feito. E fui para o elevador. E os taxistas começaram: ‘presidente Collor, vamos falar’. Eu não queria porque sabia que não conseguiria me conter. E alguns deles estavam com umas fitinhas verde-amarelas, e eu falei: nos próximo domingo, vamos sair às ruas de verde-amarelo. E aconteceu justamente o contrário: no domingo, as pessoas saíram vestidas de preto.

G1 - E qual foi sua sensação? Collor - De que isso era o início do fim, não tinha mais jeito. Eu perdi a minha grande base, a população. Uma base que ficou fragilizada com as denúncias e com o patrulhamento dos meios de comunicação, dos organismos da sociedade e partidos políticos. G1- Em algum momento, o senhor pensou em suicídio em 92? Collor - O que eu passei me levou a pensar em tudo. O importante é que a fé que possuo me ajudou a sobreviver a tudo isso. Porque aqueles que comandaram esse golpe não queriam meu fim político, mas o fim de minha vida biológica. E eu me lembro de uma vez, nos últimos instantes, o então governador Leonel Brizola, em audiência comigo no Palácio do Planalto, disse: ‘presidente, acompanhei a vida pública deste país nos últimos 40 anos, acompanhei Getúlio. Quero pedir um favor, como cidadão Leonel Brizola: não incorra no mesmo erro de Getúlio (que suicidou-se em 1954), resista’. G1 - O senhor acha que o escândalo do mensalão é maior do que as denúncias de sua época? Collor - Nossa, muito mais. Vários megatons mais graves. G1 - Por que então não chegou ao presidente Lula? Collor - Porque o presidente Lula tem uma base muito sólida, que o defende. A grande diferença é que me faltava a base de sustentação. Até porque eu também acredito na palavra dele. Eu tenho a postura de acreditar no que as pessoas me dizem até que seja provado o contrário. Eu acredito na palavra dele, embora isso tenha acontecido a poucos metros da sala presidencial. Acredito nele, porque - o que é um defeito do sistema presidencialista - é impossível saber tudo o que está acontecendo. G1 - E sua posição no Senado em relação ao governo dele? Collor - De apoio ao governo Lula. Porque ele vem fazendo uma administração eficiente. E ele mudou muito, é outro homem. Um amigo nosso em comum me disse que uma vez o Lula falou que foi uma sorte não ter ganhado em 1989, porque não estava preparado. E era verdade.

G1 - E o senhor estava preparado? Collor - A prova de que eu não estava preparado para governar o país, aos 40 anos de idade, é que sofri o impeachment. G1 - Na sua opinião, sua eleição ao Senado pode reconstruir sua história? Collor - A história é contada a conta-gotas. Sempre tem um ponto final. Mas também há vírgula a seguir. Fui presidente da República e sofri um impeachment em 1992. Ponto. Agora, com minha eleição ao Senado, o ponto se transforma em vírgula: fui eleito pelo estado de Alagoas, cumpri meu mandato e apresentei projetos. G1 - A partir daí, ponto final ou vírgula para disputar a presidência novamente? Collor - Não seria correto descartar, inteiramente, qualquer possibilidade. Até porque não acertei muito quando descartei qualquer possibilidade de participação na vida política. O que posso dizer é que não sou candidato em 2010. G1 - O que mudou do Collor de 1992 para o Collor de 2007? Collor - São 14 anos de diferença. Basicamente é uma mudança para qualquer um de nós. É o amadurecimento, a experiência, uma reavaliação da própria vida pessoal, profissional, política. Uma mudança grande, que significa evolução e eu espero que agora, com o mandato que recebi das urnas, possa dar minha contribuição ao debate no Congresso. G1 - Quais serão seus principais projetos como senador? Collor - O projeto que pretendo apresentar o quanto antes é o da reforma política, que considero a mãe de todos os projetos. G1 - O que pensa sobre a reeleição? Collor - É um instituto pouco republicano. Acredito que a questão da reeleição trouxe mais problemas que soluções. É uma forma viciada, pouco salutar. Eu acho que o jogo político brasileiro vem sendo praticado debaixo de um conjunto de regras deficientes.
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