Humanos invadiram Europa há 45 mil anos
Artefatos achados na Rússia apontam chegada do Homo sapiens ao continente.
Falta de competição com neandertais teria facilitado colonização a partir do leste.
Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo
Universidade do Colorado em Boulder/Divulgação
Artefatos de marfim com provável estatueta de homem (no centro, com 'cabeça' redonda no alto)Um sítio arqueológico na Rússia acaba de acrescentar mais uma peça ao quebra-cabeças da história da expansão dos seres humanos modernos pelo planeta. Artefatos desenterrados lá indicam que o Homo sapiens invadiu a Europa há cerca de 45 mil anos, por uma rota que pode ter partido do interior da Eurásia.
Os achados do sítio de Kostenki, cerca de 400 km ao sul de Moscou, ajudam a confirmar que essa é a história de uma expansão-relâmpago. Tudo indica que os seres humanos modernos saíram de seu lar original, o continente africano, há cerca de 60 mil anos. Cerca de 10 mil ou 15 mil anos depois, eles não só já ocupavam o interior russo como haviam seguido o litoral asiático até a Indonésia, e até cruzado o mar e alcançado a Austrália.
“O interessante é ver que esses recém-chegados da África tenham ocupado primeiro um dos lugares mais secos e frios da Europa”, afirmou em comunicado John Hoffecker, do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina da Universidade do Colorado em Boulder (EUA). Ao lado de colegas da Academia Russa de Ciências, Hoffecker é um dos autores do estudo sobre Kostenki, que está na edição desta semana da revista americana “Science” (www.sciencemag.org). “Seria um dos últimos lugares da Europa aonde você gostaria de ir tendo vindo da África.”
É verdade que a ligação entre os achados e os Homo sapiens não é a direta, já que os únicos restos humanos do sítio são dentes, que não permitem a diferenciação precisa entre gente como nós e os neandertais.
No entanto, a tecnologia parece típica de seres humanos modernos: instrumentos fabricados com osso, chifre e marfim (os neandertais só usavam pedra e madeira para criar suas ferramentas), artefatos de pedra feitos com lâminas finas, além de indícios de arte. A identificação ainda é duvidosa, mas parece haver uma estatueta não-concluída, feita de marfim de mamute e que lembra um homenzinho. Se novos estudos confirmarem o fato, poderá ser o exemplo mais antigo de arte figurativa (com imagens reconhecíveis) da história humana.
O mais impressionante talvez seja os sinais de trocas de longa distância com outras populações da Era do Gelo. Algumas conchas furadas, provavelmente usadas na fabricação de colares, vieram das margens do mar Negro, a nada menos que 500 km de distância do sítio. Os moradores do sítio tinham estratégias de sobrevivência diversificadas, caçando tanto animais de grande porte (mamutes, rinocerontes lanosos e cavalos) quanto bichos menores e mais numerosos, como lebres e raposas-do-ártico. A tecnologia deles, embora tenha alguns pontos em comum com a que dominaria a Europa nos períodos finais da glaciação, tem características únicas, que sugerem seu papel de precursora dos artefatos que viriam depois.
Universidade do Colorado em Boulder/Divulgação
Escavação no sítio arqueológico de KostenkiA questão óbvia que vem à mente, no caso da colonização da Europa, é: por que a Rússia? Afinal, após passar pelo Oriente Médio, os H. sapiens poderiam ter muito bem avançado diretamente rumo ao oeste. No entanto, para Hoffecker, a chave para explicar isso pode ser a provável ausência de tribos neandertais na região durante esse período. “É como se os neandertais tivessem deixado a porta de trás da Europa aberta”, compara ele. Assim, os ancestrais da humanidade moderna teriam tido tempo de se adaptar às condições do continente antes de competir diretamente com seus primos da Europa Ocidental.
22 de janeiro, 2007
Artefatos achados na Rússia apontam chegada do Homo sapiens ao continente.
Falta de competição com neandertais teria facilitado colonização a partir do leste.
Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo
Universidade do Colorado em Boulder/Divulgação
Artefatos de marfim com provável estatueta de homem (no centro, com 'cabeça' redonda no alto)Um sítio arqueológico na Rússia acaba de acrescentar mais uma peça ao quebra-cabeças da história da expansão dos seres humanos modernos pelo planeta. Artefatos desenterrados lá indicam que o Homo sapiens invadiu a Europa há cerca de 45 mil anos, por uma rota que pode ter partido do interior da Eurásia.
Os achados do sítio de Kostenki, cerca de 400 km ao sul de Moscou, ajudam a confirmar que essa é a história de uma expansão-relâmpago. Tudo indica que os seres humanos modernos saíram de seu lar original, o continente africano, há cerca de 60 mil anos. Cerca de 10 mil ou 15 mil anos depois, eles não só já ocupavam o interior russo como haviam seguido o litoral asiático até a Indonésia, e até cruzado o mar e alcançado a Austrália.
“O interessante é ver que esses recém-chegados da África tenham ocupado primeiro um dos lugares mais secos e frios da Europa”, afirmou em comunicado John Hoffecker, do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina da Universidade do Colorado em Boulder (EUA). Ao lado de colegas da Academia Russa de Ciências, Hoffecker é um dos autores do estudo sobre Kostenki, que está na edição desta semana da revista americana “Science” (www.sciencemag.org). “Seria um dos últimos lugares da Europa aonde você gostaria de ir tendo vindo da África.”
É verdade que a ligação entre os achados e os Homo sapiens não é a direta, já que os únicos restos humanos do sítio são dentes, que não permitem a diferenciação precisa entre gente como nós e os neandertais.
No entanto, a tecnologia parece típica de seres humanos modernos: instrumentos fabricados com osso, chifre e marfim (os neandertais só usavam pedra e madeira para criar suas ferramentas), artefatos de pedra feitos com lâminas finas, além de indícios de arte. A identificação ainda é duvidosa, mas parece haver uma estatueta não-concluída, feita de marfim de mamute e que lembra um homenzinho. Se novos estudos confirmarem o fato, poderá ser o exemplo mais antigo de arte figurativa (com imagens reconhecíveis) da história humana.
O mais impressionante talvez seja os sinais de trocas de longa distância com outras populações da Era do Gelo. Algumas conchas furadas, provavelmente usadas na fabricação de colares, vieram das margens do mar Negro, a nada menos que 500 km de distância do sítio. Os moradores do sítio tinham estratégias de sobrevivência diversificadas, caçando tanto animais de grande porte (mamutes, rinocerontes lanosos e cavalos) quanto bichos menores e mais numerosos, como lebres e raposas-do-ártico. A tecnologia deles, embora tenha alguns pontos em comum com a que dominaria a Europa nos períodos finais da glaciação, tem características únicas, que sugerem seu papel de precursora dos artefatos que viriam depois.
Universidade do Colorado em Boulder/Divulgação
Escavação no sítio arqueológico de KostenkiA questão óbvia que vem à mente, no caso da colonização da Europa, é: por que a Rússia? Afinal, após passar pelo Oriente Médio, os H. sapiens poderiam ter muito bem avançado diretamente rumo ao oeste. No entanto, para Hoffecker, a chave para explicar isso pode ser a provável ausência de tribos neandertais na região durante esse período. “É como se os neandertais tivessem deixado a porta de trás da Europa aberta”, compara ele. Assim, os ancestrais da humanidade moderna teriam tido tempo de se adaptar às condições do continente antes de competir diretamente com seus primos da Europa Ocidental.
22 de janeiro, 2007

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