22 janeiro, 2007

Crânio traz mescla de humano e neandertal
Fóssil de 40 mil anos, achado na Romênia, tem mosaico de traços modernos e arcaicos.
Pesquisadores, no entanto, são cautelosos ao interpretar significado do fóssil.

Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo

Ainda sem o siso, fóssil deve ser de adolescenteJoão Zilhão e seus colegas definitivamente não são do tipo que desiste fácil. O arqueólogo português que trabalha na Universidade de Bristol (Reino Unido), ao lado de uma equipe internacional de pesquisadores, acaba de publicar mais um artigo científico descrevendo um possível caso de miscigenação entre seres humanos modernos e neandertais na Era do Gelo européia.

No estudo, que está na edição desta semana da revista científica americana “PNAS”, Zilhão e companhia descrevem a descoberta e análise do crânio de um adolescente que morreu há cerca de 40 mil anos onde hoje é a Romênia. Eles dizem não ter dúvidas de que se trata de um ser humano moderno, um Homo sapiens como nós. No entanto, o crânio também apresenta um conjunto de características morfológicas decididamente esquisitas e arcaicas.

Uma das explicações para esse mosaico de traços, sugerem eles, é a mistura entre os humanos anatomicamente modernos oriundos do continente africano, que começaram a invadir a Europa por volta da época em que o adolescente viveu, e os neandertais que dominavam o continente então e só desapareceram de todo (de que maneira exatamente, ninguém sabe hoje) 10 mil anos depois.

O crânio foi desenterrado em 2003, partido em mais de 30 cacos, numa galeria de cavernas calcárias chamada Pestera cu Oase (“caverna dos ossos”, em romeno). Apesar da fragmentação, os colegas paleoantropólogos de Zilhão, liderados pelo americano Erik Trinkaus, da Universidade Washington em Saint Louis, conseguiram datar a caveira e realizar uma detalhada análise morfológica.

Dá para ter certeza razoável da idade do espécime na época da morte (algo entre 15 e 20 anos) porque seus dentes do siso, embora totalmente formados, ainda não haviam terminado de aparecer acima da linha dos demais dentes.

Várias das características do fóssil são típicas dos primeiros humanos modernos, mas em outros detalhes ele é diferente de qualquer um dos indivíduos desse grupo que viveram na Europa durante a última glaciação, de acordo com a comparação detalhada feita por Trinkaus, Zilhão e seus colegas. Por outro lado, detalhes da testa e da nuca, assim como os dentes enormes, sugerem uma semelhança intrigante com os neandertais e outros humanos arcaicos.

O crânio foi remontado a partir de 38 fragmentosÉ aí que mora a controvérsia. Muitos pesquisadores sustentam, tanto com base na morfologia desses primeiros humanos europeus modernos quanto no DNA, que praticamente não houve mistura entre H. sapiens e neandertais – eles seriam duas espécies totalmente separadas. Trinkaus e Zilhão defendem um longo processo de miscigenação entre os dois povos, e seu trabalho mais famoso foi a descoberta de um suposto menino “mestiço” em Portugal, no fim dos anos 1990.

No novo trabalho, os dois dizendo que ainda é cedo para afirmar qualquer coisa sobre o exemplar romeno, mas que, seja qual for a verdade sobre ele, a chegada dos H. sapiens à Europa foi um processo muito mais complexo do que se imagina.

22 de janeiro, 2007