Lá vem chegando o... futuro
Os fins dos anos deveriam ser como qualquer fim de mês. Mas nossos rituais de passagem que fazem com que não sejam... e um destes rituais é imaginar como serão os próximos meses, ou o ano novo.
É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. A frase de Niels Bohr (prêmio Nobel de Física de 1922) revela parte da complexidade de lidar com o futuro. Mas, como nós todos viveremos (ainda) uma boa parte de nossas vidas por lá, vale a pena arriscar alguns palpites sobre o que pode -- e não sobre o que vai -- acontecer nos distantes idos de 2007. Lembrando, claro, que nunca ninguém volta às previsões do fim do ano anterior quando se faz um balanço do que verdadeiramente aconteceu no ano que passou.
Aliás, o que aconteceu no ano que passou? A Vivo “mudou” para GSM, por exemplo, o que não era nenhuma novidade. Todas as operadoras do Brasil e quase todas, no mundo, que ainda estão na segunda geração de celulares usam GSM (a Vivo usava, e ainda usa, em boa parte, CDMA). Muitos comentaristas previam, e há muito tempo, que a Vivo, na prática, não tinha escolha, principalmente depois que alguns dos principais fabricantes de celulares do mundo anunciaram que não ofereceriam mais aparelhos CDMA.
Este era o tipo da previsão fácil de fazer há vários, pelo menos quatro, anos: “este ano a Vivo vai desistir da plataforma CDMA” . Mas só aconteceu em 2006 e, em verdade, levará anos para acontecer, pois há muitos, muitos milhões de usuários de CDMA, como ainda os há de TDMA, noutras operadoras, tecnologia da primeira geração digital, que pode levar de três a cinco anos para desaparecer completamente...
Outras coisas importantes aconteceram em 2006, claro, e pouca gente previu: a fusão Americanas.com/Submarino.com foi uma delas, indicando que investidores no negócio de varejo virtual querem competir com o varejo de pedra e cal. E muitas outras coisas não aconteceram, e algumas delas até foram previstas, como o Brasil não ter progredido muito nos índices mundiais de inclusão digital. Aliás, desde 2004, quando o índice da revista “The Economist” começou a ser computado, nós saímos do 36º, perdendo dois lugares no segundo ano e mais três no terceiro, para acabarmos em 41º em 2006.
Isso importa? Se sim, que previsões podemos fazer para 2007? Será que vamos cair mais alguns lugares? A primeira resposta é sim, isto importa muito, pois mede quão preparado o país está para o mundo e economia digitais. A segunda é talvez, segundo a boa norma estabelecida por Bohr. A ameaça mais próxima é a Argentina (claro!) em 42º lugar; o Chile (31º) e o México (39º) já nos passaram e parece que não temos chances de alcançá-los. E o problema não é que o Brasil não avança, é que os outros estão indo mais depressa, como de resto é qualquer competição.
Nós avançamos muito em computadores pessoais neste ano; pelo menos em computadores pessoais que a Receita Federal vê, destes que pagam impostos ou são isentos deles. A diminuição da fúria arrecadatória sobre o principal instrumento de digitalização real da sociedade, que ainda é o PC (daqui a quanto tempo vai ser o celular? Faça sua previsão...) aumentou consideravelmente o número de computadores vendidos legalmente no Brasil, o que não significa que o número de computadores vendidos, no total, tenha aumentado significativamente. Se bem que, segundo analistas de mercado, serão vendidos sete milhões de PCs em 2006 (contra 5,4 milhões em 2005), 50% dos quais nas “feiras do Paraguai” do Brasil (que desovaram cerca de 70% das máquinas em 2005). Difícil é saber quão precisa é a medida da sonegação e do contrabando...
Deixando tais preciosidades prá lá, por enquanto, isso pode mesmo ter sido uma evolução, este ano. Pode nos deixar fazer a previsão de que mais brasileiros, pessoas físicas e empresas, terão acesso à internet e seu conteúdo e serviços, como consumidores e provedores. Quantos? Segundo a PNAD 2005, somente 10% dos brasileiros tinham acesso diário à internet. Assuma que metade dos sete milhões dos PCs vendidos este ano são “novos” (não substituem um já existente, com acesso à rede) e que cada um é usado por pelo menos duas pessoas. Arredonde, dobre o número para 2007 e... conclua que... no fim de 2007... 15% dos brasileiros estarão na internet? 5% de nós, a mais, na rede, todo dia, seriam uns dez milhões de pessoas, coisa que dá muito bem pra fazer com cinco milhões de PCs a mais.
O problema é que a conta da internet discada pode ser muito maior que a prestação do PC e a banda larga, conta fixa, disponível só aqui e ali, não vai nem tão cedo ter preço e cobertura pra botar este povo todo na rede. Ou todas as micro e pequenas empresas que precisam de internet para seus negócios... isso porque as médias e grandes já estão na rede. Resultado: o chute, feito nas mesmas bases da PNAD 2005, para o número de brasileiros na rede em 2007 fica limitado aos 15% do nosso faz-de-conta acima, 1% a mais ou a menos. Fim do ano que vem, se vocês lembrarem, podem me cobrar o erro na previsão, e tomara que eu esteja errando pra muito menos.
Com tanta, ou tão pouca, gente na rede (pelo menos aqui no Brasil), o que é que eles vão fazer? Ah... este é o resto da previsão, que é o que todo mundo que eu conheço, no mundo inteiro, está tentando fazer. Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs?
Não são poucas as perguntas e as respostas, para cada uma, são muitas. Tantas que ninguém pode tratar mais que umas poucas e, destas, talvez acertar uma pequena parte, especialmente nas previsões para o ano que vem. Porque um ano é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco tempo para qualquer coisa. Tendências aparecem num ano e podem ser destruídas no outro. É disso que vamos falar na última coluna do ano, semana que vem: o que começou a pintar em 2006 (ou antes) que pode virar padrão em 2007 e o que está, talvez, pra começar a desaparecer nas próximas doze luas. Feliz Natal e até lá.
26 de dezembro, 2006
Os fins dos anos deveriam ser como qualquer fim de mês. Mas nossos rituais de passagem que fazem com que não sejam... e um destes rituais é imaginar como serão os próximos meses, ou o ano novo.
É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. A frase de Niels Bohr (prêmio Nobel de Física de 1922) revela parte da complexidade de lidar com o futuro. Mas, como nós todos viveremos (ainda) uma boa parte de nossas vidas por lá, vale a pena arriscar alguns palpites sobre o que pode -- e não sobre o que vai -- acontecer nos distantes idos de 2007. Lembrando, claro, que nunca ninguém volta às previsões do fim do ano anterior quando se faz um balanço do que verdadeiramente aconteceu no ano que passou.
Aliás, o que aconteceu no ano que passou? A Vivo “mudou” para GSM, por exemplo, o que não era nenhuma novidade. Todas as operadoras do Brasil e quase todas, no mundo, que ainda estão na segunda geração de celulares usam GSM (a Vivo usava, e ainda usa, em boa parte, CDMA). Muitos comentaristas previam, e há muito tempo, que a Vivo, na prática, não tinha escolha, principalmente depois que alguns dos principais fabricantes de celulares do mundo anunciaram que não ofereceriam mais aparelhos CDMA.
Este era o tipo da previsão fácil de fazer há vários, pelo menos quatro, anos: “este ano a Vivo vai desistir da plataforma CDMA” . Mas só aconteceu em 2006 e, em verdade, levará anos para acontecer, pois há muitos, muitos milhões de usuários de CDMA, como ainda os há de TDMA, noutras operadoras, tecnologia da primeira geração digital, que pode levar de três a cinco anos para desaparecer completamente...
Outras coisas importantes aconteceram em 2006, claro, e pouca gente previu: a fusão Americanas.com/Submarino.com foi uma delas, indicando que investidores no negócio de varejo virtual querem competir com o varejo de pedra e cal. E muitas outras coisas não aconteceram, e algumas delas até foram previstas, como o Brasil não ter progredido muito nos índices mundiais de inclusão digital. Aliás, desde 2004, quando o índice da revista “The Economist” começou a ser computado, nós saímos do 36º, perdendo dois lugares no segundo ano e mais três no terceiro, para acabarmos em 41º em 2006.
Isso importa? Se sim, que previsões podemos fazer para 2007? Será que vamos cair mais alguns lugares? A primeira resposta é sim, isto importa muito, pois mede quão preparado o país está para o mundo e economia digitais. A segunda é talvez, segundo a boa norma estabelecida por Bohr. A ameaça mais próxima é a Argentina (claro!) em 42º lugar; o Chile (31º) e o México (39º) já nos passaram e parece que não temos chances de alcançá-los. E o problema não é que o Brasil não avança, é que os outros estão indo mais depressa, como de resto é qualquer competição.
Nós avançamos muito em computadores pessoais neste ano; pelo menos em computadores pessoais que a Receita Federal vê, destes que pagam impostos ou são isentos deles. A diminuição da fúria arrecadatória sobre o principal instrumento de digitalização real da sociedade, que ainda é o PC (daqui a quanto tempo vai ser o celular? Faça sua previsão...) aumentou consideravelmente o número de computadores vendidos legalmente no Brasil, o que não significa que o número de computadores vendidos, no total, tenha aumentado significativamente. Se bem que, segundo analistas de mercado, serão vendidos sete milhões de PCs em 2006 (contra 5,4 milhões em 2005), 50% dos quais nas “feiras do Paraguai” do Brasil (que desovaram cerca de 70% das máquinas em 2005). Difícil é saber quão precisa é a medida da sonegação e do contrabando...
Deixando tais preciosidades prá lá, por enquanto, isso pode mesmo ter sido uma evolução, este ano. Pode nos deixar fazer a previsão de que mais brasileiros, pessoas físicas e empresas, terão acesso à internet e seu conteúdo e serviços, como consumidores e provedores. Quantos? Segundo a PNAD 2005, somente 10% dos brasileiros tinham acesso diário à internet. Assuma que metade dos sete milhões dos PCs vendidos este ano são “novos” (não substituem um já existente, com acesso à rede) e que cada um é usado por pelo menos duas pessoas. Arredonde, dobre o número para 2007 e... conclua que... no fim de 2007... 15% dos brasileiros estarão na internet? 5% de nós, a mais, na rede, todo dia, seriam uns dez milhões de pessoas, coisa que dá muito bem pra fazer com cinco milhões de PCs a mais.
O problema é que a conta da internet discada pode ser muito maior que a prestação do PC e a banda larga, conta fixa, disponível só aqui e ali, não vai nem tão cedo ter preço e cobertura pra botar este povo todo na rede. Ou todas as micro e pequenas empresas que precisam de internet para seus negócios... isso porque as médias e grandes já estão na rede. Resultado: o chute, feito nas mesmas bases da PNAD 2005, para o número de brasileiros na rede em 2007 fica limitado aos 15% do nosso faz-de-conta acima, 1% a mais ou a menos. Fim do ano que vem, se vocês lembrarem, podem me cobrar o erro na previsão, e tomara que eu esteja errando pra muito menos.
Com tanta, ou tão pouca, gente na rede (pelo menos aqui no Brasil), o que é que eles vão fazer? Ah... este é o resto da previsão, que é o que todo mundo que eu conheço, no mundo inteiro, está tentando fazer. Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs?
Não são poucas as perguntas e as respostas, para cada uma, são muitas. Tantas que ninguém pode tratar mais que umas poucas e, destas, talvez acertar uma pequena parte, especialmente nas previsões para o ano que vem. Porque um ano é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco tempo para qualquer coisa. Tendências aparecem num ano e podem ser destruídas no outro. É disso que vamos falar na última coluna do ano, semana que vem: o que começou a pintar em 2006 (ou antes) que pode virar padrão em 2007 e o que está, talvez, pra começar a desaparecer nas próximas doze luas. Feliz Natal e até lá.
26 de dezembro, 2006

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home