Entrevista de Gushikem a Folha, em Brasília
FOLHA - Por que o sr. decidiu deixar o governo?
LUIZ GUSHIKEN - Conversei com o presidente [em audiência na sexta-feira] e acertei a minha saída. A reeleição de Lula abre um novo ciclo. A renovação de quadros é natural. Todos os membros de minha família se mudaram para São Paulo e Indaiatuba [interior paulista]. Quero estar mais próximo deles. Depois de cumprir a quarentena, examinarei o que fazer na iniciativa privada.
FOLHA - Tarso falou em "fim da era Palocci". O sr. concorda?
GUSHIKEN - Fui testemunha de que decisões fundamentais da economia passavam pela aprovação do presidente. Ainda bem que tivemos o Palocci na gestão da Fazenda, pois o Brasil foi colocado nos trilhos. A expressão foi infeliz, mas o inconformismo diante da acanhada taxa de expansão econômica é compreensível.
FOLHA - O sr. crê em guinada na economia?
GUSHIKEN - A idéia de guinada é ingênua. O debate do desenvolvimento é necessário, mas considero enfadonha uma discussão monotemática, centrada só nos juros. A discussão deve apontar os instrumentos para destravar o ambiente econômico. Nos temas mais sensíveis, como juros e câmbio, o talento dos gestores depende muito da discrição, do tipo pallociana, de forma a fazer o mercado ir se adaptando naturalmente às medidas, cuja eficácia é inversamente proporcional aos decibéis sonoros dos avisos prévios.
FOLHA - Para um grupo de ministros, bastaria queda mais rápida dos juros para materializar crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 5% ao ano. Ajuste fiscal seria secundário.
GUSHIKEN - Brinco que reunião de economistas é igual à de trotskistas. Bastam duas pessoas para aparecerem divergências insolúveis. Os males da economia não serão sanados com varinha mágica. Severidade fiscal é condição fundamental para se transmitir confiança para investimentos públicos e privados. O desafio é combinar estabilidade com taxas vigorosas de crescimento.
FOLHA - Em 2002, pré-crise ética, o PT teve grande representação no governo. Qual deve ser o peso no segundo mandato?
GUSHIKEN - O PT é o partido do presidente reeleito, o campeão de votos para a Câmara. A participação no governo não deve ferir sua dignidade como grande partido, mas não pode sufocar os aliados, dificultar a formação de um governo de coalização. O país precisa de tranqüilidade institucional após o clima eleitoral de exacerbada beligerância. Ser ganancioso por espaço no governo ou deflagrar feroz luta interna na conquista de posições no partido pode ser o caminho para transformar o PT no ninho da serpente do governo.
FOLHA - O sr. defendeu uma aproximação com o PSDB. O mensalão e o dossiegate a dificultaram mais. Será possível um dia?
GUSHIKEN - Acreditava que as bases sociais do PSDB, parte da classe média e intelectuais, poderiam facilitar a governabilidade no contexto de uma base de apoio parlamentar volátil. Na época, muitas lideranças do PSDB estavam sensíveis a uma aproximação. Não proclamavam o caráter beligerante demonstrado na eleição. Hoje, vejo dificuldades. Mas, em política, os amigos de hoje podem ser os inimigos amanhã, e vice-versa.
FOLHA - Com os escândalos, uma série de dirigentes do PT e ministros de peso caiu. Qual será o futuro do PT?
GUSHIKEN - O PT é maior do que seus quadros dirigentes. É uma organização de milhares de militantes, criada e temperada em lutas sociais agudas. Apesar dos graves desacertos, estavam equivocados os que alardearam seu esgotamento histórico. O PT não é personalista, mas capaz de recriar lideranças.
FOLHA - O sr. concorda com a tese de que é preciso "despaulistizar o PT". Ao gerar conflitos devido a projetos pessoais de poder, essa seção seria a principal responsável pelas crises?
GUSHIKEN - A seção paulista não tem culpa do mérito de possuir grandes quadros dirigentes que travam disputas normalmente. Às vezes, a inconveniência "paulista" ocorre quando disputas locais internas e contra outros partidos se espraiam no quadro nacional, amplificando o problema. O PSDB padece da mesma situação.
FOLHA - Por que o PT se relaciona mal com a imprensa?
GUSHIKEN - É natural no ambiente democrático a vigilância da imprensa sobre os governantes, criticando-os e fiscalizando-os. Isso leva a um relacionamento naturalmente tenso, mas que ajuda o próprio governo a se corrigir. Mas, por outro lado, quando a mídia comete erros de julgamento, nem sempre se percebe esforço adequado de reparação para restabelecer a verdade. Isso talvez tenha contribuído para a postura defensiva, ainda que não seja a recomendável.
FOLHA - Quais foram os acertos de Lula que o reelegeram?
GUSHIKEN - Contribuíram de forma decisiva as políticas sociais. Mas por si só não seriam suficientes se não houvesse uma arrumação na economia que permitiu, mesmo com baixas taxas de crescimento, uma distribuição da renda que sensibilizou a população historicamente desfavorecida.
FOLHA - E os maiores erros?
GUSHIKEN - Não ter conseguido uma base parlamentar sólida e leal. Perdemos até a eleição para a presidência da Câmara [tendo dois candidatos no páreo, em 2005]. Outro erro foi não ter percebido a CPI dos Correios como instrumento de guerra eleitoral sem tréguas contra o governo.
FOLHA - Quais as prioridades do segundo mandato?
GUSHIKEN - Criar condições para acelerar o processo de desenvolvimento econômico do país. Focar a problemática da segurança pública e atacar frontalmente a questão da melhoria da qualidade da educação básica, identificada nos estudos do Núcleo de Assuntos Estratégicos como o principal desafio estratégico do país e como o maior instrumento de transformação social.
FOLHA - O TCU acusa a Secom [então sob sua gestão] de contratar agências de publicidade para produzir cartilhas de prestação de contas do governo superfaturadas e de não ter realizado toda a impressão. Qual sua posição?
GUSHIKEN - Este assunto foi politizado por conta da campanha eleitoral, a começar pela falsa denominação cartilhas. Dá a entender que o governo mandou imprimir um manual para distribuir aos militantes do PT. É falso. Fez parte da estratégia de desinformação e difamação da oposição. Eram revistas de prestação de contas semestral das atividades do governo, o que sempre defendi como obrigação. É absurdo alegar que não houve a produção das revistas. A oposição disse que elas "inundavam o Brasil", o que não deixa de ter certa razão. A distribuição desse material foi muito extensa. As suspeições do TCU sobre superfaturamento e realização do serviço são apressadas e baseadas em metodologias que apresentam erros. A Secom seguiu o procedimento padrão como a lei determina, deixando para as agências publicitárias a responsabilidade contratual, por meio de licitação privada, de encomendar serviços gráficos. As gráficas que foram subcontratadas pelas agências são as maiores do mercado. Têm boa organização administrativa e seus registros irão completar as provas já entregues ao TCU.
FOLHA - Repasse ao PT para distribuir não é ilegal e imoral?
GUSHIKEN - Não há ilegalidade na utilização de um partido político como canal de distribuição dos balanços da administração federal. Qualquer entidade privada pode colaborar com a administração pública, doar-lhe bens ou serviços. Fossem os balanços uma publicidade partidária ou pessoal do presidente ou de seus ministros, isto é, tivesse havido a utilização da máquina pública a serviço do partido, haveria certamente procedimento imoral, contrário à ética pública. Errados foram os procedimentos do governo passado que usavam estatais para fazer propaganda do governo, como no Plano Real.
FOLHA - No governo, houve divisão entre ministros em relação aos interesses do banqueiro Daniel Dantas com os fundos de pensão. Dirceu e Henrique Pizzolato ficaram a favor. Por que o sr. era contrário a Dantas?
GUSHIKEN - Minha posição política sempre foi contrária às pretensões empresariais de Dantas porque poderiam redundar em gigantesco prejuízo aos trabalhadores, os únicos e verdadeiros donos dos fundos de pensão. Pizzolato, à época diretor de publicidade do Banco do Brasil, também detinha o cargo de presidente do Conselho da Previ. Estranhamente, fazia críticas à minha posição naquele conflito. Acredito que esta foi a sua motivação para o falso testemunho contra minha pessoa e que foi utilizado para a denúncia apresentada no Supremo Tribunal Federal.
FOLHA - Sua briga com Dantas o tornou incômodo para Lula?
GUSHIKEN - Jamais o presidente me criticou. E ficou indignado com a sórdida espionagem empreendida contra mim e outras pessoas feita por Dantas.
13 de novembro, 2006